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No fundo, bem lá no fundo...

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No fundo eu queria que a mãe entendesse que tenho feito tudo que posso pelo bem estar dela. Mas pela sua condição, pode ser que ela nunca entenda. Mas é também  minha responsabilidade tomar decisões difíceis. O importante  é que ela tenha qualidade de vida. Um vida sem lembranças. E que eu consiga ajudá-la sem me perder no caminho.  Pois se eu me perder, perde-se tudo.

Lembranças

Me peguei pensando em como seria triste esquecer-me dos momentos que vivi. Sofrer esse apagão na memória pela doença de Alzheimer. Imaginei, por descuido, como seria se eu esquecesse dos momentos felizes que vivi com minha filha: o dia do seu nascimento, os primeiros passos, as primeiras palavras, os encontros, os passeios,... Me senti muito mal. Mas é assim que funciona. A evolução da doença faz um estrago no que recordamos de bom e de ruim. Sem critérios. Sem escolhas. Seria ótimo escolher o que esquecer. Mas, como bem sei, o universo parece seguir indiferente à nós. Não dá pra ser feliz assim. Por isso, os pacientes de Alzheimer se deprimem. A depressão é um dos sintomas marcantes da doença. 

Cuidando de quem cuida

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Quem cuida de alguém com Alzheimer, sobretudo se for seu familiar, também precisa ser cuidado. Um mergulho na rotina do doente -uma rotina sem continuidade, repetitiva, inquieta e indiferente -, levá-nos a um mundo distante de nós mesmos.  A Abraz (Associação Brasileira de Alzheimer) possui iniciativas de apoio emocional aos cuidadores. Em particular, agradeço muito a Psicóloga Suzete Cassalha e aos demais participantes do nosso grupo.  Só quem convive com o Alzheimer consegue aperceber-se da complexa rede de problemas e desafios envolvidos nessa  missão. Também conto com a preciosa ajuda de meus amigos que dedicam um tempo para me ouvir.  Aos cuidadores que passam por aqui, eu deixo um conselho: não abram mão das pessoas ao seu redor. O isolamento é.a.pior forma de cuidar-se.

Morpheus e Trinity

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Quem assistiu ao filme Matriz vai lembrar que os personagens Morpheus e Trinity usavam um equipamento que apagava a memória recente das pessoas. O objetivo era que situações nebulosas e inverossímeis fossem esquecidas.  Pois então, com o Alzheimer é assim: imagine uma pessoa que recebe um disparo daquele equipamento a cada 10 minutos. Agora imagine que isso não é imaginação.

Perder-se

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Hoje olho com mais atenção quando vejo um idoso na rua. Fico atendo ao seu rumo. Minha mãe perdeu-se muitas vezes mesmo quando ainda era "independente" e morava sozinha. Alguns vizinhos me disseram: tua mãe estava perdida outro dia... Uma vez ela perdeu-se na praia. Depois ela se perdeu no centro da cidade. Perdeu-se no bairro, perto de casa. Agora, frequentemente, se perde dentro de casa. Já se perdeu no quarto... Fui encontrá-la tentando entrar dentro do guarda roupa.

O brilho eterno de uma mente sem lembranças

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No filme incrivelmente maravilhoso "O brilho eterno de uma mente sem lembranças" as pessoas vivem a possibilidade de poder apagar as lembranças indesejadas da memória: um amor que não deu certo, a lembrança de uma pessoa ou animal que morreu, um acontecimento indesejado...tudo pode ser apagado. A história é linda e a possibilidade é tentadora.  Mas não é assim com o Alzheimer.  A doença não nos oferece escolha. Como foi bem retratado no filme "Para sempre Alice". Não podemos escolher o que esquecemos. Não está sob nosso controle o que esquecer e o que lembrar.  Por isso o Alzheimer é cruel. Não é por descaso que minha mãe esquece quem sou ou quem é minha filha. É por acaso que ela lembra do nome de um vizinho e esquece até que tem netas. Uma mente sem lembranças não brilha, sobretudo quando as lembranças apagadas eram aquelas que davam sentido à vida.

Quem cuida de quem

Hoje pensando no quanto é importante manter a calma, me dei conta que essa tarefa tem sido buscada muito por minha mãe. Pra mim é fácil manter a calma, mas para ela é confuso, sem a referência da memória.  Mas minha mãe mantém a calma mesmo sem ter onde se segurar. Tarefa dura, que exige um laço muito apertado, que não se desfaz nessa circunstância.  Por isso tenho refletido muito sobre a importância de ser amável e sensível agora e sempre.