Quebra-cabeça

Muitas vezes me sinto tão perdido quanto minha mãe. 

Seu estranhamento com a sua casa, sua insistente inquietação (uma teimosia inconsciente), me deixam confuso sobre o que fazer.

Vou dar um exemplo:

Quando minha mão diz que precisa voltar pra casa (para o meu rancho), às vezes eu digo "amanhã eu te levo pra casa". Mas essa solução dura muito pouco. Alguns minutos para ser mais preciso. 

De modo que durante o dia, minha mãe fica fazendo as malas...organizando suas roupas e objetos em sacolas para levar. Ela anda pela casa e vai encontrando suas coisas, uma panela, um quadro, um tapete...e vai recolhendo. 

Ela percebe que suas coisas estão aqui, mas não consegue ver que a casa é a sua. 

A doença limita essas conexões. Seu raciocínio lógico falha. 

Mas na maioria das vezes eu insisto em conversar com ela e mostrar que a casa é a sua casa. Mostro detalhes indeléveis e ela vai aos poucos juntando os pedaços e tenta montar o quebra-cabeça. Mas as peças não se encaixam. A imagem da casa se confunde, talvez com outra casa que minha mãe morou quando era ainda uma criança.

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