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Mostrando postagens de julho, 2020

Eu e meu irmão

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Um dia bem complicado foi o dia em que minha mãe pensou que eu era o meu irmão, o Claudiomar. Meu irmão morreu em 2008 num acidente de carro.  Ele era muito brincalhão, de modo que não perdia nenhuma oportunidade de rir de tudo. Estava sempre de bom humor e nos pregando peças. Por isso, foi difícil convencer minha mãe de eu era eu e não meu irmão. Ela pensava que era ele sacaneando ela. Ela, em seu labirinto, me dizia "não brinca assim, eu sei que tu é o Cláudio. Onde está o Cesar (eu). Mesmo olhando minhas fotos, minha mãe não me reconhecia. Mas daí ela me pediu que eu mostrasse minha identidade. Eu mostrei e ela se convenceu. - É mesmo, tu é o Cesar.

Liga e desliga

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    Minha mãe mora há, pelo menos, quarenta anos na mesma casa.       Pode-se dizer que cada detalhe da casa foi pensado por ela.       Cada mudança sofrida no decorrer desse tempo foi pacientemente projetada pelo jeito de minha mãe enfrentar o mundo e sua realidade.       Assim, a casa original se transformou. O que era madeira virou cimento. Telhado, portas, janelas e paredes foram sendo modificados, para melhor.     Não foram mudanças bruscas. Na medida que a vida exigia, a casa ganhava um cômodo a mais, muro, portas, janelas...     Minha mãe não reconhece mais a sua casa como a casa que é sua. A casa imaginada por ela é outra casa. Como essa, mas outra. Hoje minha mãe perguntou-me como ela poderia apagar a luz do corredor. Eu mostrei para ela o interruptor antigo (que ela já utilizou milhares de vezes) acionando algumas vezes para ela ver o funcionamento.  Ela ficou olhando par...

Os primeiros sinais

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Num dia de Natal, minha mãe me perguntou se eu sabia por onde andava o meu pai. Meu pai havia morrido há dez anos. Naquele dia fiquei um tempo sem ação. Foi uma surpresa pra mim receber essa pergunta. Ela pensava que ele tinha saído de casa, e que iria voltar um dia. Eu falei pra ela que o pai tinha ficado doente e acabou morrendo e que já fazia tempo. Ela lembrou, chorou, mas depois tudo pareceu-nos estar bem. Hoje percebo que aquele já era um sinal de que a memória da mãe apresentava alguns vazios. Alguns anos mais tarde, já num estágio mais avançado do Alzheimer, minha mãe voltou a esperar pela chegada do pai em casa. "Deixa janta para o teu pai. Não sei se ele vem hoje, mas pode ser que venha". Algumas vezes ela ia na garagem ver se o carro dele estava lá. São momentos difíceis que a doença causa e saber como lidar é ainda difícil pois o Alzheimer evolui aos poucos. O real e o imaginário se misturam e não podemos desconsiderar nem um nem outro nessa lida.