Os primeiros sinais
Num dia de Natal, minha mãe me perguntou se eu sabia por onde andava o meu pai.
Meu pai havia morrido há dez anos.
Naquele dia fiquei um tempo sem ação. Foi uma surpresa pra mim receber essa pergunta. Ela pensava que ele tinha saído de casa, e que iria voltar um dia.
Eu falei pra ela que o pai tinha ficado doente e acabou morrendo e que já fazia tempo. Ela lembrou, chorou, mas depois tudo pareceu-nos estar bem.
Hoje percebo que aquele já era um sinal de que a memória da mãe apresentava alguns vazios.
Alguns anos mais tarde, já num estágio mais avançado do Alzheimer, minha mãe voltou a esperar pela chegada do pai em casa. "Deixa janta para o teu pai. Não sei se ele vem hoje, mas pode ser que venha". Algumas vezes ela ia na garagem ver se o carro dele estava lá.
São momentos difíceis que a doença causa e saber como lidar é ainda difícil pois o Alzheimer evolui aos poucos. O real e o imaginário se misturam e não podemos desconsiderar nem um nem outro nessa lida.
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