Distantes de nós mesmos*

É difícil conversar com alguém sem memória.

A conversa precisa sempre partir de um ponto que, às vezes, está muito distante.

Minha mãe lembra-se do passado mas não lembra do agora; tanto que confunde-se com o que já foi e com o que ainda é. 

A casa, onde moro com ela, é a casa que ela mora há mais de quarenta anos. Porém suas lembranças do que é a sua casa não coincidem com essa casa. Ela reconhece os detalhes, as marcas do tempo, os vizinhos, mas falta algo. Ela me diz que tem certeza que viajou pra cá e agora precisa voltar. 

A ideia de voltar é uma ideia permanente.

Assim, ela está sempre como se estivesse em visita.

Encontra coisas suas e diz: 

- Ué, como isso veio parar aqui?

Minha mãe não sente-se em casa na sua própria casa. 

* Essa frase eu encontrei no livro Do amor e outros demônios de Gabriel García Márquez:

- Como estamos longe! - suspirou.

- De que?

- De nós mesmos.

Comentários

  1. Imagino como deve ser difícil. Minha Tia teve uma Tia com esta doença e acompanhei um pouco o que passou.

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